Grupo de oração leva alimento para os que têm fome

Dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede. Quem segue Cristo sabe que essas são obras de misericórdia, que somam 14 e incluem ainda outras ações no plano físico e espiritual em prol dos irmãos. Há quase dois anos o grupo de oração Misericórdia Divina, da Paróquia e Santuário Nossa Senhora de Fátima, em Fortaleza (CE), vem disseminando essas iniciativas de caridade entre seus integrantes e mobilizando-os para a prática do evangelho.
Assim é que as noites de quinta-feira, que poderiam ser momentos de lazer entre os jovens, é para os integrantes do grupo de oração um compromisso inadiável: ir às ruas da cidade com lanche na bagagem e uma dose de amor no coração tentando amenizar as madrugadas de quem vive nas ruas. No meio da tarde de quinta-feira os voluntários se reúnem em um endereço no Bairro de Fátima para preparar o lanche. Depois, rezam o terço da Misericórdia, fazem orações e leem o evangelho antes de ir às ruas.
“Pedimos a Deus que abençõe todos nós e que essa oferta seja útil no dia do nosso juízo”, explica Daniel Chagas Torres, da coordenação do grupo. Um dos voluntários que não hesita em cortar das salsichas para preparar os cachorros-quentes é Matheus Lessa, 23 anos.”Eu gosto de vir porque gosto de ajudar os outros. Eu nunca falto, só não venho quando não posso”, revela.
Antes de sair para as ruas a equipe se divide em dois carros: um leva o sanduíche, e o outro, o suco, que são servidos a quem encontrarem pelo caminho. O percurso começa no Bairro de Fátima e segue até o Centro, fazendo pausa em pontos estratégicos como a Pousada Social da Prefeitura de Fortaleza e a Praça do Ferreira. Nesses locais a equipe desce do carro para evangelizar os presentes. Daniel Torres faz uma oração antes de distribuir os cachorros-quentes e o suco. “É uma bênção porque hoje é feriado [Corpus Christi]”, festeja um rapaz ao receber o lanche.
Nayla Nobre, também da Coordenação do Misericórdia Divina, conta que toda semana são entregues 100 cachorros-quentes com suco, sendo que na terceira quinta-feira do mês a quantidade sobre para 200 sanduíches. “A gente vai procurando mesmo e observa que há pessoas que moram no viaduto”, diz. Um dos alvos do lanche são os catadores que recolhem lixo com suas carrocinhas, nas imediações do Mercado Central.
A jornalista Ingrid Melo participa da ação desde janeiro de 2019. “É uma experiência que vejo que me renova. É como se eu tivesse contato com a misericórdia de Deus, estando com eles”. Essa iniciativa de ir às ruas é uma grande novidade na vida de Carmelinda Rodrigues, integrante do grupo que ampliou sua percepção social ao percorrer as ruas com o grupo. “Para mim é muito emocionante. Coisas que eu nem sabia que existia, como as visitas aos hospitais e às ruas, estão sendo feitas”, diz.
Pessoas de todas as idades vivem no Centro
No Centro da cidade, são dezenas de moradores, incluindo crianças e idosos, que vivem sob a marquise das lojas porque não têm um teto. Na Praça do Ferreira, ponto de parada do grupo e onde moram várias pessoas, a correria é grande quando o carro do lanche para. Rapidamente eles se alinham em uma fila. Mesmo com o alvoroço, é rezada uma oração e todos participam. O grupo leva ainda algumas doações em roupa que são distribuídas conforme a necessidade das pessoas que encontram. Pode faltar lar, alimentos e outros tantos itens essenciais, mas sobra solidariedade entre as pessoas em situação de rua, que mesmo vivendo sob privação, tentam ajudar uns aos outros.
Desde 2014 a Prefeitura de Fortaleza oferece espaços voltados a pessoas em situação de rua. Um deles é a Pousada Social e o Centro de Convivência Cirlândio Rodrigues de Oliveira, localizados na Rua Solón Pinheiro, 898, no Centro da Capital. A pousada dá acolhida aos adultos cadastrados que dormem naquele local. Dispõe ainda de serviço de lavandeira e alimentação (café da manhã, almoço e jantar).  Já o Centro de Convivência oferece atividades de sociabilidade e cursos profissionalizantes.
A fé é cultivada mesmo sem um teto
Viver sem teto em uma cidade grande faz com que muitos se acostumem a improvisar um lar. O flanelinha E.R. mora há vários anos numa praça da cidade com mais oito pessoas. Ali mesmo são preparadas as refeições dos moradores. As roupas secam ao sol, estendidas em um varal. Quem chega à praça onde ele vive já vai se “sentindo em casa” tamanha a receptividade do rapaz, que logo mostra seu altar: uma imagem de Nossa Senhora de Fátima sobre uma mesinha. Ele não abre mão da fé e diz que não admite o uso de bebida no local.
Saber o perfil dessas pessoas em situação de rua motivou pesquisa por parte do poder público municipal. Conforme levantamento realizado em 2015, Fortaleza teria cerca de 1.800 pessoas nessa condição, sendo que a maioria é composta por homens, com idade superior a 25 anos. Os motivos que os levam às ruas são vários: problemas familiares, vínculos rompidos com a família, falta de condições para bancar um lar, violência, dentre outros.
Obras de misericórdia inspiram grupo 
As obras de misericórdia são ações em prol dos irmãos que somam ao todo 14, sendo divididas em corporais e espirituais. São sete as obras de misericórdia corporais: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, abrigar os peregrinos, assistir aos enfermos, visitar os presos e enterrar os mortos. As obras de misericórdia espirituais também são sete: instruir, aconselhar, consolar, confortar, perdoar, suportar com paciência e rogar pelos vivos e pelos mortos.
Buscando colocar em prática essas iniciativas, no início de junho de 2019 o grupo de oração Misericórdia Divina levou fraldas e demais itens de higiene pessoal para doar a crianças da creche de filhos de internas do Instituto Penal Feminino Auri Moura Costa. Foi a segunda vez que o grupo vai àquela creche. A primeira ocorreu no Natal, quando seus integrantes estiveram com crianças e suas mães lembrando o nascimento de Jesus. “Fomos no Natal e agora vamos na Páscoa, os dois momentos mais importantes do Cristianismo”, explica Daniel Torres, da Coordenação do Misericórdia Divina.
A equipe esteve também neste mês no Hospital Militar. “Jesus disse pra gente visitar os enfermos. Nós conseguimos agendar com o hospital e fomos louvar, rezar com eles e levar a água de Nossa Senhora de Lourdes. Foi muito bom”, conta Daniel. Ele explica que os pacientes gostam da visita e que é importante os acompanhantes receberem oração. Lembra que há pesquisas que atestam o poder da oração  para a recuperação dos doentes. Daniel ressalta que a intenção do grupo é ir regularmente aos hospitais.

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